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18 de fev. de 2012

É carnaval

Leroy Neiman - Carnaval Suite Passistas
E mais uma vez é fevereiro, e mais uma vez você não vai conseguir sair de casa à noite sem que algum folião tente te asfixiar com aquela espuma em lata ou te jogar confete na cara ao som de uma marchinha desconhecida. É carnaval.
Vou pular a parte de que a festa na avenida gera visibilidade, lucro e emprego pro país. Até porque esse tipo de visibilidade, o de mulheres -e homens- semi ou completamente nuas sambando pra não-sei-quantos milhões de pessoas, é um dos culpados pelo chamado turismo sexual ser tão arraigado no país; o lucro, exceto pela indústria hoteleira, é quase que todo revestido pras escolas (o que, basica e economicamente falando, não gera lucro nenhum); sobre os empregos... Bom, se você acha que o montador dos carros alegóricos, o puxador dos mesmos, o camelô que vende os leques, chapéus e bandanas das escolas e até a tia que vende refri e cerveja quente na arquibancada têm carteira assinada e todos os seus direitos trabalhistas garantidos, pelo menos a fantasia de Alice ou de Bozo te caem muito bem neste carnaval.
Mas isso todo mundo sabe e prefere esconder entre as plumas e paetês tão típicos da festa (que, originalmente, não tinha nada disso). O mais legal é ver aquele povo chato e nariz empinado da firma,escola, escritório e afins, que jura conhecer todas as músicas da Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Velozo, Gilberto Gil e Chico Buarque de cor ( a letra sim, mas duvido que entendam o significado de algumas), virar  fãs de carteirinha de Michel Teló ou Gustavo Lima durante os dias de folia . Nada contra os artistas citados, o meu contra é pra esse povo que se elitiza demais durante o ano todo, criticando o povão e seus ídolos, para, em dias de festa e fantasia, se misturar com a gentalha que tanto costumava criticar. Fazendo, assim, do feriado a única alforria da caretice e também passe livre pra hipocrisia. Não, não os condeno por ouvirem e dançarem o ‘Ai se eu te pego’ ou o ‘Tche (99x)’. Condeno-os sim, por não deixarem que essa folia os ensine a ser gente, ser mais feliz e de bem com a vida e menos crítico com o gosto e a felicidade alheia. Condeno-os, principalmente, por, após todo esse confete, serpentina e muita farra, guardar a fantasia de ser humano no fundo de um guarda-roupa.

30 de nov. de 2011

Ele já estava pronto

Por muitas vezes ele havia enfrentado o mundo inteiro e a sociedade em que vivia somente para poder continuar a ser verdadeiro consigo mesmo. Sentia-se estranho, deslocado, humilhado e menosprezado ao notar o olhar de reprovação de algumas pessoas enquanto passava pela rua, ou até mesmo dentro de casa. E, admirando agora uma de suas fotografias daquela época, ele até que se saiu muito bem.

Apesar do medo, sempre mostrou-e como era: gente. E mesmo que muitas vezes tivesse de apertar o passo, correr ou entrar em lojas ou outros locais públicos para se proteger dos que não o compreendiam -ou não se compreendiam e o tomavam por bode expiatório- nunca se escondeu.

Apesar de a sociedade aceitar muito melhor mentirosos, falsos e subjulgados, e de sua família tentar convencê-lo de que uma divindade justa o aceitaria melhor se ele fingisse ser outro alguém, ele ainda preferia ser verdadeiro, puro, ele.

Sabia que o preço seria pago com muitas portas fechadas, muitos olhares reprovadores e, de certo modo, a vida o preparou.

Passou a usar óculos escuros para não mostrar o quanto se machucava com a rejeição, e aprendeu a superá-la. Estudou, se dedicou e mostrou que as portas fechadas se abrem e estendem seus melhores tapetes para o talento e a dedicação. Criou e cuido bem de cada um dos seus amigos, construindo assim, sua nova família. E sobreviveu.

E enquanto guardava a foto daquele tempo junto com outras lembranças na caixa de mudança, do tempo em que as fotos não mostravam um sorriso, ele mostrava uma fina, feliz e saudosa fileira branca nos lábios ao olhar para si mesmo pelo reflexo do vidro. Tão diferente e, essencialmente, o mesmo.

E, assim, voltava a empacotar suas coisas; deveria estar pronto até o meio-dia, quando o caminhão levaria tudo para sua nova casa enquanto ele dirigiria até o centro da cidade e partiria para o cartório oficializar seu casamento, sua felicidade.

Ele já estava pronto.