Pages

28 de set. de 2012

Final Feliz

"... e eles viveram felizes para sempre. Fim"

E ele, após escrever e ler tais palavras no final de sua mais nova obra infantil, permitiu-se rir do clichê que todos ansiavam por ler. Ainda imaginando os suspiros vindo de menininhas - e por que não menininhos - em seus nove ou dez anos, e nos olhares esperançosos de seus pais quanto ao futuro de tais criancas, tomou mais um gole de sua taça de Solaia (presente de seu namorado) ainda com um sorrriso nos lábios. Ele acabara seu mais novo sucesso de vendas. Seu mais novo best-seller dos contos infantis, tão previsivel, mas tão aclamado.

Foi-se o tempo em que ele pensara em como, ao criar finais felizes em suas historias, cegava seus pequenos leitores para uma realidade dura e cruel. Por mais fama que tivesse, por mais prestígio, seus livros mais 'realistas' foram fracassos de vendas e pouco procurados por escolas ou até mesmo contadores de histórias. "Sao apenas crianças", "o mundo real é cruel demais", "nós devemos protegê-las disso" e mais tantas outras frases que seus criticos o haviam dito já não o afetavam mais. Entretanto, sua verdade não pagava suas contas e sua arte, por mais que sincera fosse, era abafada numa sociedade de ilusões. A mentira paga muito melhor do que a realidade.

Talvez o mundo precisasse mesmo de mais fantasia, de mais sonhos. Mas isso nunca deixara de escrever. Nos livros antigos, o principe foi feliz com o príncipe do reino vizinho, construiram um reinado de paz e findaram uma guerra secular espalhando seu amor. E a donzela que conseguiu escapar da torre de sua madrasta simplesmente por ser esperta demais e auto-suficiente também fez muitos amigos pela estrada, mesmo sem ter esperado nenhum príncipe regatá-la. E tantos outros que também tiveram um final feliz. Os poucos leitores de tais obras perceberam a felicidade nos personagens. Talvez não fosse o final feliz esperado. Ou talvez nem todos conseguissem compreender que felicidade não possui uma forma, um padrão.

E ao findar sua taça de vinho, salvou seu arquivo e o enviu a seu editor. Em poucas semanas de revisão, já o publicaria e, certamente seria um sucesso de críticas e vendas. Deixaria que finais aceitos como felizes fossem contados e apreciados por quem quer que fosse. Já tinha uma nova história ainda por escrever na Itália e muitos outros críticos e editores -esses não só de uma editora- a rebater durante o processo. Acordou de seus devaneios com o toque de seu celular, que estava perto da taça, mostrando uma foto que ele reconhecia com um sorriso no rosto. Com toda a certeza, ele teria seu final feliz.

18 de fev. de 2012

É carnaval

Leroy Neiman - Carnaval Suite Passistas
E mais uma vez é fevereiro, e mais uma vez você não vai conseguir sair de casa à noite sem que algum folião tente te asfixiar com aquela espuma em lata ou te jogar confete na cara ao som de uma marchinha desconhecida. É carnaval.
Vou pular a parte de que a festa na avenida gera visibilidade, lucro e emprego pro país. Até porque esse tipo de visibilidade, o de mulheres -e homens- semi ou completamente nuas sambando pra não-sei-quantos milhões de pessoas, é um dos culpados pelo chamado turismo sexual ser tão arraigado no país; o lucro, exceto pela indústria hoteleira, é quase que todo revestido pras escolas (o que, basica e economicamente falando, não gera lucro nenhum); sobre os empregos... Bom, se você acha que o montador dos carros alegóricos, o puxador dos mesmos, o camelô que vende os leques, chapéus e bandanas das escolas e até a tia que vende refri e cerveja quente na arquibancada têm carteira assinada e todos os seus direitos trabalhistas garantidos, pelo menos a fantasia de Alice ou de Bozo te caem muito bem neste carnaval.
Mas isso todo mundo sabe e prefere esconder entre as plumas e paetês tão típicos da festa (que, originalmente, não tinha nada disso). O mais legal é ver aquele povo chato e nariz empinado da firma,escola, escritório e afins, que jura conhecer todas as músicas da Maria Bethânia, Gal Costa, Caetano Velozo, Gilberto Gil e Chico Buarque de cor ( a letra sim, mas duvido que entendam o significado de algumas), virar  fãs de carteirinha de Michel Teló ou Gustavo Lima durante os dias de folia . Nada contra os artistas citados, o meu contra é pra esse povo que se elitiza demais durante o ano todo, criticando o povão e seus ídolos, para, em dias de festa e fantasia, se misturar com a gentalha que tanto costumava criticar. Fazendo, assim, do feriado a única alforria da caretice e também passe livre pra hipocrisia. Não, não os condeno por ouvirem e dançarem o ‘Ai se eu te pego’ ou o ‘Tche (99x)’. Condeno-os sim, por não deixarem que essa folia os ensine a ser gente, ser mais feliz e de bem com a vida e menos crítico com o gosto e a felicidade alheia. Condeno-os, principalmente, por, após todo esse confete, serpentina e muita farra, guardar a fantasia de ser humano no fundo de um guarda-roupa.

30 de nov. de 2011

Ele já estava pronto

Por muitas vezes ele havia enfrentado o mundo inteiro e a sociedade em que vivia somente para poder continuar a ser verdadeiro consigo mesmo. Sentia-se estranho, deslocado, humilhado e menosprezado ao notar o olhar de reprovação de algumas pessoas enquanto passava pela rua, ou até mesmo dentro de casa. E, admirando agora uma de suas fotografias daquela época, ele até que se saiu muito bem.

Apesar do medo, sempre mostrou-e como era: gente. E mesmo que muitas vezes tivesse de apertar o passo, correr ou entrar em lojas ou outros locais públicos para se proteger dos que não o compreendiam -ou não se compreendiam e o tomavam por bode expiatório- nunca se escondeu.

Apesar de a sociedade aceitar muito melhor mentirosos, falsos e subjulgados, e de sua família tentar convencê-lo de que uma divindade justa o aceitaria melhor se ele fingisse ser outro alguém, ele ainda preferia ser verdadeiro, puro, ele.

Sabia que o preço seria pago com muitas portas fechadas, muitos olhares reprovadores e, de certo modo, a vida o preparou.

Passou a usar óculos escuros para não mostrar o quanto se machucava com a rejeição, e aprendeu a superá-la. Estudou, se dedicou e mostrou que as portas fechadas se abrem e estendem seus melhores tapetes para o talento e a dedicação. Criou e cuido bem de cada um dos seus amigos, construindo assim, sua nova família. E sobreviveu.

E enquanto guardava a foto daquele tempo junto com outras lembranças na caixa de mudança, do tempo em que as fotos não mostravam um sorriso, ele mostrava uma fina, feliz e saudosa fileira branca nos lábios ao olhar para si mesmo pelo reflexo do vidro. Tão diferente e, essencialmente, o mesmo.

E, assim, voltava a empacotar suas coisas; deveria estar pronto até o meio-dia, quando o caminhão levaria tudo para sua nova casa enquanto ele dirigiria até o centro da cidade e partiria para o cartório oficializar seu casamento, sua felicidade.

Ele já estava pronto.

12 de out. de 2011

Ele Conseguiu

Ainda havia muito a ser feito. Mas agora ele não tinha mais tempo para pensar nisso.

Passou uns bons três anos desejando aquele cargo. Sabia que tinha potencial, sabia que precisaria se esforçar (, sabia que daria conta), sabia que precisava de mais foco, só não sabia quando conseguiria aquela promoção. Mas ele conseguiu.

Precisou de muito para chegar lá. Ofereceu-se para muitas horas extras, e perdeu amigos por isso. Trabalhou em alguns feriados, e virou as costas para a família. Esgotou-se no trabalho, perdendo um pouco da saúde por isso. Planejava e estudava em casa, perdendo até o sagrado tempo do ócio. Mas sabia que tudo valeria a pena, que estava mais para rocha de tão duras penas que vivia.

Checava e-mails no trânsito, corria pro trabalho, ficava horas frente ao monitor, concentrado, fixado, sugado. Comia pouco, voltava, tomava um analgésico, voltava a sentir dor de cabeça, continuava a trabalhar, enfrentava os problemas da empresa no trânsito, na volta pra casa. Chegava, informava-se, checava e-mails, deitava, dormia com o notebook ao lado. Cíclico, vazio.

Até que ele conseguiu.

Comemorou, sozinho, no bar, tomando um suco; a saúde fraca não o deixava beber. Os amigos, ao menos os que lembrava ter, não o atendiam. Os parentes estavam ocupados (ou queriam parecer estar). Até a gente do bar, rindo, batucando um samba em plena quinta feira na Lapa, parecia distante. Era mais gente que ele. Mais feliz, mais comemorante, mais viva.

Deixou de pensar nisso quando o celular vibrou em sua mesa. Havia ainda trinta e-mails a serem lidos decorrentes da mudança de cargo. Levaria um fim de semana inteiro para compreender sua função e passar as instruções ao funcionário que executaria sua antiga função. Não havia tempo a perder.

Ele conseguiu.

21 de jun. de 2011

Perda

E ao som da chuva que caía naquele inverno, ele relembrava os bons momentos que teve com aquele ser especial. Sua memória nunca iria esquecer o quanto foi feliz enquando eles estiveram juntos e, por mais que os outros pudessem duvivar ou achar ridículo, lá estava ele, sentindo um vazio enorme no peito, deitado em sua cama - que não fora só sua - agarrado aos pertences daquele que foi embora....

Eles se conheceram por curiosidade, e permaneceram por necessidade. Uma mudança de ambiente, de casa, de cidade e de amigos. O outro, a vontade de encontrar um novo lar e alguém para dar carinho. Um com um lar sem carinho enquanto o outro com um carinho sem lar. Quis o destino que se encontrassem numa loja. E, numa simples troca de olhares, enxergar que um completava o outro. E assim o carinho achou seu lar e por lá permaneceu até se tornar amor. E além disso.

Nunca houve problema entre eles. Era como se a sincronia existisse há tanto tempo que era superior à essa vida. Se entendiam, se completavam, se amavam. E nunca se permitiam deixar isso morrer: Cada um sabia o exato momento que o outro estava triste ou preocupado assim como sabia exatamente o que fazer para mudar isso, mesmo que com um gesto simples. Certa vez até encheram a mão de tinta e colocaram em um papel, que depois foi posto numa moldura, para marcar o amor entre aquelas duas criaturas.. Sempre dormiam juntos, sempre arrumavam um tempo pra sair, passear com os amigos da vizinhança ou somente eles dois. Até corriam juntos pela manhã pra cuidar da saúde! Mas foi a falta dessa tal saúde que, pra um, foi fatal.

Uma doença no sangue, a descrença dos doutores e o final de uma vida dedicada ao amor e a ser amado. E quando ele se foi, parte do outro morria com ele. E ele voltara pra casa sem reconhecer aquele lugar. Agora vazio, sem cor, sem alegria, sem amor. Até o tempo parecia sofrer com aquela perda e derramar suas lágrimas em formato de chuva. Uma chuva que lavava uma dor intensa e que o permitia chover seu pranto por ter perdido quem ele mais amava.

E ao som da chuva que caía naquele inverno, ele relembrava os bons momentos que teve com aquele ser especial. Sua memória nunca iria esquecer o quanto foi feliz enquando eles estiveram juntos e, por mais que os outros pudessem duvivar ou achar ridículo, lá estava ele, sentindo um vazio enorme no peito, deitado em sua cama - que não fora só sua - agarrado aos pertences daquele que foi embora: a coleira que ele sempre usava para passeio, a bola que sempre estava presente nos momentos de diversão e um quadro pequeno, onde aparecia uma mão e uma pata lado a lado, unidas, para a eternidade.

26 de abr. de 2011

Ele não conseguia entender

Ele não entendia. Simplesmente não conseguia entender. E, por mais que algumas pessoas achassem muito simples, sob as condições daquele menino fragilizado, nada daquilo fazia sentido. Talvez um dia ele consiga.

Ele sempre fora criado preso em casa. A mãe, uma divorciada viciada em trabalho - vício este que foi o resultado de largar o vício do fumo e da bebida - e que entendia por "cuidar de uma criança", o simples ato de pôr dinheiro na casa. Pagar uma babá estava fora de cogitação. Um menino de nove anos já era homenzinho o suficiente para se cuidar sozinho contanto que o ônibus escolar o levasse e o buscasse em casa. As ruas eram muito perigosas para ele. Suas companhias eram apenas a apresentadora infantil das manhãs e a professora rígida e religiosa das tardes.

Tinha medo de brincar com seus companheiros de sala. Da única vez que tentara, se machucara no braço, por conta de um tombo, e nas costas e pernas, por conta da surra que levara da mãe por se machucar. Por sorte fizera uma amiga, e com ela dividia as histórias dos desenhos, até ter suas próprias para contar.

Contava-lhe o que achava do mundo, dos professores e dos colegas e classe. Principalmente dos colegas, até descobrir-se gostando de um deles. "Sim, dele". Era isso que repetira à amiga incrédula de que o menino pudesse gostar de outro. Mas ela logo entendeu e passou a apoiá-lo, não era tão estranho afinal. Estranho seria se o outro menino fosse gostar deste que, por mais que tivesse ficado muito bonito, ainda conservava o jeito tímido e medroso de ser. Contanto que o outro não soubesse, tudo bem.

Mas o outro soube.

E o tal menino frágil virou piada do colégio, ou melhor - ou pior -, virou "o viadinho" do colégio. Sempre ouvindo gracinhas, sendo provocado ou até mesmo ridicularizado por toda a classe, e por toda a escola. Ele não conseguia entender o motivo disso tudo. Apenas gostava de alguém, qual o problema ser outro menino? Foi chamado pela professora a uma sessão com o psicólogo da escola - que, na verdade, era o pastor da igreja ao lado que comprara o diploma numa faculdade qualquer sem nunca ter ido nela ou lido um livro sobre o assunto. Mas era o pastor - e, por conta disso, também teve umas conversas com o cinto de sua mãe. Mas nada disso tirou de sua cabeça o fato de ser normal ele gostar de alguém, fosse quem fosse.

Até que, um dia, na volta pra casa - a pé, pois o ônibus havia ficado muito caro - , alguns meninos na escola o seguiram. E tentaram tirar de sua cabeça que gostar de um outro cara era normal. Tentaram forçada e repetidamente. Tirariam da cabeça dele aquela idéia com os pedaços de madeira e os canos que roubaram da obra perto da escola. Tirariam aquela idéia junto com sangue, se necessário -ou se divertido fosse. E foram repetidas ofensas, repetidos socos, repetidos chutes, repetidas batidas com madeira, repetidas batidas com o cano de metal e repetidas as pessoas que passaram e nada fizeram. Até que lhe tiraram - não a idéia - a consciência.

E fugiram.

O acharam, o levaram para o hospital, o puseram em tratamento intensivo. A mãe recebeu a ligação. Dividiu-se entre a dor do filho e a dor no bolso de arcar com os custos. A amiga, em prantos, correu para o hospital quando soube. E ambas estavam naquele quarto quando ele abriu os olhos.

Tentaram falar, gesticular e até gritar - nessa parte, só a mãe tentou. Mas o tal menino nada respondia. E, entrando não tão calmamente, a médica disse a elas que o tal menino não as poderia responder. Tiraram , junto com a consciência, a percepção de mundo do menino. Agnosia visual e auditiva. Não se sabia ainda se temporária ou permanente. Simplesmente não conseguiria entender mais. Rostos, gestos, palavras, sons: Nada mais.

Ele não entendia. Simplesmente não conseguia entender. E, por mais que algumas pessoas achassem muito simples, sob as condições daquele menino fragilizado, nada daquilo fazia sentido. Talvez um dia ele consiga.

Apenas talvez.

5 de mar. de 2011

Fantasia de amor

Olá, eu sei que te amo.
E sei que não é engano,
Este meu coração pulsar.

Sei que eu não te conheço
E amo, seu adereço
Enquanto o samba tocar.

Seu gosto então conheço
Sem máscara, reconheço
Todo o encanto quebrar.

E, de pronto, me despeço
E, na folia, esqueço
Nosso enlace desatar.

Olá, eu sei que te amo.
E sei que é só enquanto
Sua fantasia durar.

24 de fev. de 2011

Predador

As luzes estroboscóbicas da boate criavam uma atmosfera por ele muito conhecida e, até certo ponto, esperada. Seus olhos procuravam em cada canto daquele lugar enquanto seu corpo se deliciava com as batidas daquela música absurdamente alta. Procurava apenas por diversão num lugar onde certamente encontraria entre uma dose ou outra de tequila que descia por sua garganta. Estava em seu habitat, seu abatedouro, seu parque de diversões, estava em casa.

Ao avistar o brilho daqueles olhos castanhos percorrendo seu corpo, aproximou-se. Falou-lhe algo aos ouvidos recebendo um sorriso como resposta. Nomes foram trocados, mas logo esquecidos - pois atrapalham, substantivam, transformam comuns em próprios, e isso ele não queria -, braços foram passados por uma cintura outra, e bocas se conheceram misturando saliva, língua, tequila e volúpia. Mais vinte minutos de dança, mais cinco minutos de palavras aos ouvidos, mais dez de carro até um quarto semi-luxuoso-semi-decadente de motel.

Onde os chamados humanos - como ele - se despem de sua racinolidade e tornam-se animais: Sedentos, famintos, lascivos. Pôde saciar sua sede em cada parte do corpo de sua presa, saciar sua fome ao mordê-la suavemente, agarrá-la, apertá-la o quanto quis. Seu apetite se saciando e crescendo ao mesmo tempo a cada movimento, a cada enlace, encaixe, gemido, urro, gota de suor. E era drenado tanto quanto drenara; língua passada por seu corpo, mãos direcionadas por outras, e mãos arranhando suas costas enquanto dois corpos uniam-se e desejavam-se. E conseguiram.

Duas horas mais tarde. Uma presa satisfeira dormia tranquila num quarto de motel enquanto ele, em seu carro, voltava para sua casa para continuar sua vida esquecendo-se completamente do que acontecera na noite anterior. Lembrava-se apenas do prazer obtido e da diversão que sempre haveria de ter. Apenas em como conseguia extrair o que quisesse sempre que quisesse de quem quisesse. E sair, depois de saciar-se, para voltar à sua vida, sua caça contínua. E nunca pensar no ontem enquanto uma nova noite ainda existisse. Uma noite a mais, para uma diversão a mais, sempre.

...

As luzes estroboscóbicas da boate criavam uma atmosfera por ele muito conhecida e, até certo ponto, esperada. Seus olhos procuravam em cada canto daquele lugar enquanto seu corpo se deliciava com as batidas daquela música absurdamente alta. Procurava apenas por diversão num lugar onde certamente encontraria entre uma dose ou outra de tequila que descia por sua garganta. Estava em seu habitat, seu abatedouro, seu parque de diversões, estava em casa.

1 de fev. de 2011

BBB no paredão

Quando o ano começa, a televisão brasileira gira em torno de um único programa: o Big Brother Brasil. E, assim como muitos canais, abertos ou não, começam a separar um generoso espaço para a atração, muitas pessoas assim o fazem. Não é de se estranhar ouvir sobre este ou aquele participante, sobre quem se envolveu com quem, quem está jogando ou qualquer outra temática em uma conversa em um consultório, mercado, salão ou qualquer outro lugar, físico ou virtual.

Mas como sempre existe uma corrente contrária, há também os que não gostam, não suportam (mas assistem tanto quanto os fanáticos) e alguns - mais evoluídos - que simplesmente não assistem ao tal programa. Não que seja de mau gosto falar mal, achar que é uma manipulação ou que o programa é uma perda de tempo. Apenas seria mais lógico se, as mesmas pessoas que falam mal parassem de assistir somente para criticar depreciativamente. Mas entendemos que falar mal dos outros é sempre melhor do que olhar pra nossas atitudes (e tem alguns até que nem conseguem fazer isso).

Uma das maiores críticas ao programa - e uma das mais ridículas também - é quanto à falta de cultura no programa. Nada que acrescente ou que gere uma reflexão mais crítica, ou que simplesmente seja útil para abrir a mente do brasileiro. Mas em nenhum momento tal atração se propôs a isso. Que eu saiba, é apenas um programa de entretenimento como outro qualquer, e como tal, não acrescenta muito às nossas vidas. Além disso, se você parar pra pensar, até alguns eventos ditos culturais não o são de fato. Ou vai dizer que ver a rainha de bateria da escola de samba rebolando seminua e cheia de glitter no corpo te faz refletir sobre os rumos que a nação tomará?

Acho um pouco de hipocrisia e de falta do que fazer também criticar o Big Brother Brasil. Todos nós sabemos que a atração não vai ser mais cultural pois simplesmente não é esse o objetivo. Ou você acha que o telespectador queria que, em uma prova de resistência, os confinados tivessem que recitar Os Lusíadas até o fim? A própria emissora tem seus programas educativos, informativos e culturais; qual o grande problema de ter um - ou quantos quiser - só de entretenimento? E não preciso nem comentar a hipocrisia que é alguém assistir como louco, pagar o pay-per-view e ainda reclamar que o programa é uma perda de tempo.

O poder de mudar o programa deixou de estar em nossas mãos; é uma atração de grande audiência apesar do formato quase imutável e é de interesse da emissora que ele continue assim. Agora, o poder de trocar de canal, ou de desligar a televisão e ir ler um livro, sempre esteve conosco e sempre estará, basta saber usar (e, de vez em quando, trocar as pilhas também) .

12 de jan. de 2011

Pega o ladrão!

Alguém pegue o ladrão que roubou aquela pobre moça!

Ela estava distraidamente passeando na rua com seu cachorro de bolsa enquanto olhava as vitrines das lojas mais caras na rua. Havia, faz pouco tempo, desligado o celular após uma conversa agradável com sua amiga viajante pela Europa. Ainda estava com a mente na conversa quando o celular de última geração fora levado por um pivete qualquer. Coitada.

Alguém pegue o pivete que roubou aquela indefesa senhora!

Não queria saber. Só queria chegar na polícia e fazer o retrato falado do assaltante. Os faria procurar até no inferno para achar aquele meliante. Por mais um pagamento - por fora - faria até com que os policiais matassem o infeliz. Ninguém mandou mexer com a filha do mais novo governador daquele estado.

Alguém pegue aquele moleque! Ele roubou a moça!

Ele a conhecia muito bem. Fora ela mesmo quem prometera que seu pai - o candidato a governador - garantiria um emprego para aquele rapaz. Fora ela quem fizera ele acreditar nessa promessa e, por isso, comprar à longas prestações, a tão sonhada casa para sua futura família. Fora ela quem negara conhecê-lo assim que seu pai fora eleito. Fora ela quem provocara sua ruína, sujara seu nome, sua honra e suas atitudes. Agora ele, desempregado, desesperado e quase-pai de família, não tinha outra escolha senão tirar de quem o tirou tanto, o dinheiro para manter sua família enquanto não saíam da casa não-paga.

Alguém pegue esse safado!

Enquanto ele corria com lágrimas nos olhos por cometer tal ato - talvez pelo peso da culpa em seus ombros, ou pela dor de sujar sua honestidade - ela sorria pensando em como ele seria torturado e morto. Justiça e injustiça, retribuição e vingança.

Pega o ladrão!

11 de dez. de 2010

Clara

(créditos da foto desconhecidos, imagem alterada por mim)

Clara era a menina escura
Que talvez por tal ironia burra
Este nome a mãe à Clara dera

Clara era uma menina pura
E por um ébrio pai abusada
Chorava, alma pura mantivera

Clara era uma menina cega
pois via em vender a sua bala
Confiança que sua mãe lhe dera

Clara é menina agora fria
E em seu peito, chama apagara
Por um disparo em sua favela

Finalmente, descansar Clara fora
Escura, pura, cega, fria. Livre?

20 de nov. de 2010

Caçador

As luzes estroboscóbicas da boate criavam uma atmosfera por ele muito conhecida e, até certo ponto, esperada. Seus olhos procuravam em cada canto daquele lugar enquanto seu corpo se deliciava com as batidas daquela música absurdamente alta. Procurava apenas por diversão num lugar onde certamente encontraria entre uma dose ou outra de tequila que descia por sua garganta. Estava em seu habitat, seu abatedouro, seu parque de diversões, estava em casa.

Ao avistar o brilho daqueles olhos castanhos percorrendo seu corpo, aproximou-se. Falou-lhe algo aos ouvidos recebendo um sorriso como resposta. Nomes foram trocados, mas logo esquecidos - pois atrapalham, substantivam, transformam comuns em próprios, e isso ele não queria. Braços foram passados por uma cintura entregue, e bocas se conheceram misturando saliva, língua, tequila e volúpia. Mais vinte minutos de dança, mais cinco minutos de palavras aos ouvidos, mais dez de táxi até um quarto semi-luxuoso semi-decadente de motel.

Onde os chamados humanos - como ele - se despem de sua racinolidade e tornam-se animais: Sedentos, famintos, lascivos. Pôde saciar sua sede em cada parte do corpo de sua presa, saciar sua fome ao mordê-la suavemente, agarrá-la, apertá-la o quanto quis. Seu apetite se saciando e crescendo ao mesmo tempo a cada movimento, a cada enlace, encaixe, gemido, urro, suor. E era drenado tanto quanto drenara; língua passada por seu corpo, mãos direcionadas por outras, e mãos arranhando suas costas enquanto dois corpos uniam-se e desejavam-se. E conseguiram.

Duas horas mais tarde. Uma presa satisfeita - e abatida - dormia tranquila num quarto de motel enquanto ele, em seu carro, voltava para sua casa para continuar sua vida esquecendo-se completamente do que acontecera na noite anterior. Lembrava-se apenas do prazer obtido e da diversão que sempre haveria de ter. Apenas em como conseguia extrair o que quisesse sempre que quisesse de quem quisesse. E sair, depois de saciar-se, para voltar à sua vida, sua caça contínua. E somente pensar no dia de amanhã, e esperar a noite cair. Uma noite a mais, para uma diversão a mais, sempre.

As luzes estroboscóbicas da boate criavam uma atmosfera por ele muito conhecida e, até certo ponto, esperada. Seus olhos procuravam em cada canto daquele lugar enquanto seu corpo se deliciava com as batidas daquela música absurdamente alta. Procurava apenas por diversão num lugar onde certamente encontraria entre uma dose ou outra de tequila que descia por sua garganta. Estava em seu habitat, seu abatedouro, seu parque de diversões, estava em casa.

17 de set. de 2010

O ônibus

E o ônibus segue seu caminho pela avenida movimentada, na cidade fria de pessoas apressadas.

Cada novo passageiro é acolhido em pontos irregulares, mas contanto que o dinheiro movimente a roleta, não faz mal. Acomodam-se, e passam a observar a cidade fria através das janelas sujas de vidro. Alguns, além de atraídos pela paisagem externa ainda têm fones nos ouvidos, alienando-os completamente, presos, não somente naquele veículo, mas em um mundo próprio e individualista.

E o ônibus segue seu caminho pela avenida apressada, na cidade fria de pessoas movimentadas.

Poucos metros à frente, um outro ônibus é invadido por assaltantes. Todos os passageiros se preocupam, mas não em avisar as autoridades ou ligar para que alguém fique ciente. Sua preocupação é em esconder os próprios bens e agradecer o azar dos passageiros do ônibus invadido. Em suas preces, agradecem pelos ladrões terem roubado o ônibus da frente e esquecido o deles.

E o ônibus segue seu caminho pela avenida fria, na cidade apressada de pessoas movimentadas.

Em mais um certo ponto da avenida, existe uma aglomeração na pista. O ônibus é obrigado a esperar o trânsito melhorar para poder passar tranquilamente. Um acidente, um motoqueiro estendido ao chão sobre uma poça de seu próprio sangue. Tal imagem gera inquietação nos passageiros. Poucos ficam curiosos e querem ver a cena, apreciar a morte alheia. Muitos reclamam, culpam o motoqueiro por causar-lhes atraso de alguns minutos com sua morte. E ainda alguns poucos que não se pronunciaram, pensam na possibilidade do ônibus passar por cima de tudo que o impede de seguir para evitar-lhes o atraso.

E enfim, o transtorno é findado. E o corpo é recolhido. E a pista é liberada.

E o ônibus segue seu caminho pela avenida apressada, na cidade movimentada de pessoas frias.

8 de ago. de 2010

A fase dos porquês

Quando somos crianças, nossos parentes facilmente conseguem apontar a nossa fase dos "poquês?". É só escutarmos alguma afirmativa ou alguma explicação que o interrogatório começava logo." Mas por quê? E por quê?"... Acontece que a vida passa e essa fase parece ultrapassada quando, na verdade, não o é.

Quem aqui não se pegou perguntando o motivo de não ter ganho uma nota boa na escola ou então, a razão daquele carinha que você estava afim não te dar bola, ou o porquê de sua nota do vestibular não ter sido suficiente, ou porquê de o seu chefe -aquele mala- nunca estar satisfeito por mais que você tenha plena certeza de dar até mais que cem por cento no trabalho?

O fato é que a única coisa que muda nessa fase dos porquês é o tipo de pergunta. Essas indagações sempre nos acompanharão e fazem até parte do nosso processo de auto-conhecimento e percepção - e compreensão - de mundo. O grande problema é quando a fase acaba dominando você e as perguntas falam mais que suas próprias atitudes.

Aí cabe a você parar um minutinho e pensar se vale mesmo a pena se indagar tanto e deixar de viver para procurar respostas. Pois uma coisa é procurar entender como algumas coisas funcionam pra você e outra completamente diferente é bancar o Sherlock com sua própria vida. Nem todas as perguntas foram feitas para serem respondidas (e tem outras que é bem melhor não saber a resposta) e, não cabe a você, meu caro, mudar isso.

Afinal, quando você estiver velhinho; vai parar, sentar um pouquinho, refletir, olhar pra sua trajetória nessa vida e somente uma pergunta deve ser respondida: Valeu a pena?

15 de jul. de 2010

Monstro em sala

(foto: filme "O Monstro da Lagoa Negra" )


Estava em em meu estágio tomando conta de uma sala de alfabetização (1º ano primário) quando uma menininha puxou a barra da minha calça para me mostrar que o amigo dela estava chorando. Achando que era algo comum, que a criança estava com saudade dos pais, ou que alguma outra criança tivesse brigado com ele, fui tentar acalmar o menino e saber o motivo do choro.Para minha supresa, tal menino soluçante e aos prantos estava chorando pois a "tia" iria brigar com ele pois ele havia esquecido de fazer o dever de casa. Rapidamente ajudei o menino e voltei pro meu posto esperando a professora destes alunos chegar. Mas não pude parar de pensar em tal menino e no medo que ele tinha nos olhos por pensar na bronca que levaria da tal "tia".

Esquecer de fazer o exercício pode até ser descuido, mas convenhamos, é uma criança! Cabe muito aos pais lembrar tal menino de fazer a lição ao invés de se divertir e brincar como toda criança quer e deve fazer. quem nunca esquceu-se de fazer a lição vez ou outra e que nem por isso deixou de ser um bom aluno, ou ao menos aprender alguma matéria? Minha preocupação se dá pelo desespero de tal criança ao pensar em ser repreendido severamente pela professora simplesmente por esquecer-se de realizar uma tarefa.

Se um menino começa a chorar copiosamente por um simples esquecimento, que tipo de ameaça ou repreensão tal menino já presenciou ou sofreu por parte desta professora? Que tipo de profissional de ensino transmite o conhecimento e impõe o respeito causando medo em criancinhas de 4 a 5 anos? Talvez tal professora esteja estressada, cansada e mal paga, mas será que, mesmo assim, isso compensa tratar crianças de uma forma ameaçadora a ponto de despertar o medo nelas até mesmo por antecipação? Não sei, mas acho que profissionais que se propõem a trabalhar com crianças devem ser ao menos engajados para tratar dos menores sem pressioná-los a tal ponto. É claro que devem cobrar deles resultados e cumprimento de tarefas mas, a ponto de deixá-los desesperados e ameaçados, acho que não.

Sei que pedir por profissionais calmos, receptivos e atenciosos no nosso país é muito difícil, pois a área do ensino é muito mal remunerada e carente de investimento (tanto no salário, quanto no treinamento/aprimoramento de seus profissionais). Mas mesmo assim, acho que deve vir da parte do próprio professor tentar melhorar e controlar uma turma incentivando-os (e não por ameaças ou pressão psicológica) e mostrando-os as vantagens de se alcançar metas no aprendizado. Não somente questioná-los a atingir certa nota, sem nem ao menos conscientizá-los da evolução em suas vidas que é alcançar tal objetivo.Principalmente nas primeiras séries, onde os alunos estão despreparados e desnorteados quanto ao porquê de terem que atingir tal nota.

Mais do que dizer "para passar de ano", mostrar que, adquirir conhecimento, mais do que boas notas, é assegurar uma evolução pessoal que, se mostrada desde o começo, pode motivar os alunos a serem mais que Bs, Rs ou Is nos boletins. E mais do que pressionar, explicar ao aluno a importância, não do cumprimento de todas as tarefas mecanicamente, mas sim do exercício, treino e do aprendizado dos conteúdos apresentados.

E talvez assim, tenhamos menos alunos debulhados em lágrimas preocupados com a bronca da tia e mais alunos preocupados em aprender.

18 de jun. de 2010

Ceifa de Outono

E ainda mais uma vez ele olhava para aquela fotografia - não pela primeira, nem pela última vez - enquanto um sorriso nostálgico se formava em seus lábios e uma lágrima formava-se em seus olhos até escorrer por um caminho já traçado por tantas outras no rosto daquele homem. Talvez olhar pela janela fosse melhor do que para aquela fotografia, um dia ensolarado, mas de temperatura amena: perfeito para sair e viver a vida, mas ele ainda não se sentia assim.

Eles tinham se conhecido em uma festa, mas foram se apaixonar somente dois encontros depois. Mas se amaram por um verão inteiro, até as primeiras folhas de outono caírem, junto com aquele amor. Indiferença, descaso, solidão. Um deles não sabia que o amor é um cultivo contínuo e, por mais que tentasse, sua própria natureza deixou este amor morrer.

E, ao outro, a dor foi grande, como se um ceifador rasgasse seu peito e, junto com sua pele, retalhasse também seu coração. Mas ele o reconstruiria, Demoraria um inverno inteiro para se dar conta disso, mas o cultivaria para florescer na próxima primavera, ou assim iria ele acreditar. Não deixando nunca de lembrar daquele verão no qual foi feliz, antes daquele amor morrer.

E ainda mais uma vez ele olhava para aquela fotografia - não pela primeira, nem pela última vez - enquanto um sorriso nostálgico se formava em seus lábios e uma lágrima formava-se em seus olhos até escorrer por um caminho já traçado por tantas outras no rosto daquele homem. Talvez olhar pela janela fosse melhor do que para aquela fotografia, um dia ensolarado, mas de temperatura amena. Perfeito para sair e viver a vida.

Recomeço

Bom, faz tempo que eu não uso um blog e desta vez espero voltar de vez.

Enfim, este é um novo espaço, algo experimental onde simplesmente colocarei  minhas opiniões, pontos de vista e até mesmo desabafos sobre o que quer que aconteça, não aconteça ou o que vier na mente.

Não deixarei de postar textos, coisas que eu amo fazer e que continuarão no http://bit.ly/otherside . Apenas me permito aqui comentar sobre eles e responder mais, coisa que não costumava fazer no outro blog.

Bom, acho que é isso, então.

Bem vindos e sintam-se à vontade,

Greg_Vancher