26 de abr de 2011

Ele não conseguia entender

Ele não entendia. Simplesmente não conseguia entender. E, por mais que algumas pessoas achassem muito simples, sob as condições daquele menino fragilizado, nada daquilo fazia sentido. Talvez um dia ele consiga.

Ele sempre fora criado preso em casa. A mãe, uma divorciada viciada em trabalho - vício este que foi o resultado de largar o vício do fumo e da bebida - e que entendia por "cuidar de uma criança", o simples ato de pôr dinheiro na casa. Pagar uma babá estava fora de cogitação. Um menino de nove anos já era homenzinho o suficiente para se cuidar sozinho contanto que o ônibus escolar o levasse e o buscasse em casa. As ruas eram muito perigosas para ele. Suas companhias eram apenas a apresentadora infantil das manhãs e a professora rígida e religiosa das tardes.

Tinha medo de brincar com seus companheiros de sala. Da única vez que tentara, se machucara no braço, por conta de um tombo, e nas costas e pernas, por conta da surra que levara da mãe por se machucar. Por sorte fizera uma amiga, e com ela dividia as histórias dos desenhos, até ter suas próprias para contar.

Contava-lhe o que achava do mundo, dos professores e dos colegas e classe. Principalmente dos colegas, até descobrir-se gostando de um deles. "Sim, dele". Era isso que repetira à amiga incrédula de que o menino pudesse gostar de outro. Mas ela logo entendeu e passou a apoiá-lo, não era tão estranho afinal. Estranho seria se o outro menino fosse gostar deste que, por mais que tivesse ficado muito bonito, ainda conservava o jeito tímido e medroso de ser. Contanto que o outro não soubesse, tudo bem.

Mas o outro soube.

E o tal menino frágil virou piada do colégio, ou melhor - ou pior -, virou "o viadinho" do colégio. Sempre ouvindo gracinhas, sendo provocado ou até mesmo ridicularizado por toda a classe, e por toda a escola. Ele não conseguia entender o motivo disso tudo. Apenas gostava de alguém, qual o problema ser outro menino? Foi chamado pela professora a uma sessão com o psicólogo da escola - que, na verdade, era o pastor da igreja ao lado que comprara o diploma numa faculdade qualquer sem nunca ter ido nela ou lido um livro sobre o assunto. Mas era o pastor - e, por conta disso, também teve umas conversas com o cinto de sua mãe. Mas nada disso tirou de sua cabeça o fato de ser normal ele gostar de alguém, fosse quem fosse.

Até que, um dia, na volta pra casa - a pé, pois o ônibus havia ficado muito caro - , alguns meninos na escola o seguiram. E tentaram tirar de sua cabeça que gostar de um outro cara era normal. Tentaram forçada e repetidamente. Tirariam da cabeça dele aquela idéia com os pedaços de madeira e os canos que roubaram da obra perto da escola. Tirariam aquela idéia junto com sangue, se necessário -ou se divertido fosse. E foram repetidas ofensas, repetidos socos, repetidos chutes, repetidas batidas com madeira, repetidas batidas com o cano de metal e repetidas as pessoas que passaram e nada fizeram. Até que lhe tiraram - não a idéia - a consciência.

E fugiram.

O acharam, o levaram para o hospital, o puseram em tratamento intensivo. A mãe recebeu a ligação. Dividiu-se entre a dor do filho e a dor no bolso de arcar com os custos. A amiga, em prantos, correu para o hospital quando soube. E ambas estavam naquele quarto quando ele abriu os olhos.

Tentaram falar, gesticular e até gritar - nessa parte, só a mãe tentou. Mas o tal menino nada respondia. E, entrando não tão calmamente, a médica disse a elas que o tal menino não as poderia responder. Tiraram , junto com a consciência, a percepção de mundo do menino. Agnosia visual e auditiva. Não se sabia ainda se temporária ou permanente. Simplesmente não conseguiria entender mais. Rostos, gestos, palavras, sons: Nada mais.

Ele não entendia. Simplesmente não conseguia entender. E, por mais que algumas pessoas achassem muito simples, sob as condições daquele menino fragilizado, nada daquilo fazia sentido. Talvez um dia ele consiga.

Apenas talvez.