24 de fev de 2011

Predador

As luzes estroboscóbicas da boate criavam uma atmosfera por ele muito conhecida e, até certo ponto, esperada. Seus olhos procuravam em cada canto daquele lugar enquanto seu corpo se deliciava com as batidas daquela música absurdamente alta. Procurava apenas por diversão num lugar onde certamente encontraria entre uma dose ou outra de tequila que descia por sua garganta. Estava em seu habitat, seu abatedouro, seu parque de diversões, estava em casa.

Ao avistar o brilho daqueles olhos castanhos percorrendo seu corpo, aproximou-se. Falou-lhe algo aos ouvidos recebendo um sorriso como resposta. Nomes foram trocados, mas logo esquecidos - pois atrapalham, substantivam, transformam comuns em próprios, e isso ele não queria -, braços foram passados por uma cintura outra, e bocas se conheceram misturando saliva, língua, tequila e volúpia. Mais vinte minutos de dança, mais cinco minutos de palavras aos ouvidos, mais dez de carro até um quarto semi-luxuoso-semi-decadente de motel.

Onde os chamados humanos - como ele - se despem de sua racinolidade e tornam-se animais: Sedentos, famintos, lascivos. Pôde saciar sua sede em cada parte do corpo de sua presa, saciar sua fome ao mordê-la suavemente, agarrá-la, apertá-la o quanto quis. Seu apetite se saciando e crescendo ao mesmo tempo a cada movimento, a cada enlace, encaixe, gemido, urro, gota de suor. E era drenado tanto quanto drenara; língua passada por seu corpo, mãos direcionadas por outras, e mãos arranhando suas costas enquanto dois corpos uniam-se e desejavam-se. E conseguiram.

Duas horas mais tarde. Uma presa satisfeira dormia tranquila num quarto de motel enquanto ele, em seu carro, voltava para sua casa para continuar sua vida esquecendo-se completamente do que acontecera na noite anterior. Lembrava-se apenas do prazer obtido e da diversão que sempre haveria de ter. Apenas em como conseguia extrair o que quisesse sempre que quisesse de quem quisesse. E sair, depois de saciar-se, para voltar à sua vida, sua caça contínua. E nunca pensar no ontem enquanto uma nova noite ainda existisse. Uma noite a mais, para uma diversão a mais, sempre.

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As luzes estroboscóbicas da boate criavam uma atmosfera por ele muito conhecida e, até certo ponto, esperada. Seus olhos procuravam em cada canto daquele lugar enquanto seu corpo se deliciava com as batidas daquela música absurdamente alta. Procurava apenas por diversão num lugar onde certamente encontraria entre uma dose ou outra de tequila que descia por sua garganta. Estava em seu habitat, seu abatedouro, seu parque de diversões, estava em casa.

1 de fev de 2011

BBB no paredão

Quando o ano começa, a televisão brasileira gira em torno de um único programa: o Big Brother Brasil. E, assim como muitos canais, abertos ou não, começam a separar um generoso espaço para a atração, muitas pessoas assim o fazem. Não é de se estranhar ouvir sobre este ou aquele participante, sobre quem se envolveu com quem, quem está jogando ou qualquer outra temática em uma conversa em um consultório, mercado, salão ou qualquer outro lugar, físico ou virtual.

Mas como sempre existe uma corrente contrária, há também os que não gostam, não suportam (mas assistem tanto quanto os fanáticos) e alguns - mais evoluídos - que simplesmente não assistem ao tal programa. Não que seja de mau gosto falar mal, achar que é uma manipulação ou que o programa é uma perda de tempo. Apenas seria mais lógico se, as mesmas pessoas que falam mal parassem de assistir somente para criticar depreciativamente. Mas entendemos que falar mal dos outros é sempre melhor do que olhar pra nossas atitudes (e tem alguns até que nem conseguem fazer isso).

Uma das maiores críticas ao programa - e uma das mais ridículas também - é quanto à falta de cultura no programa. Nada que acrescente ou que gere uma reflexão mais crítica, ou que simplesmente seja útil para abrir a mente do brasileiro. Mas em nenhum momento tal atração se propôs a isso. Que eu saiba, é apenas um programa de entretenimento como outro qualquer, e como tal, não acrescenta muito às nossas vidas. Além disso, se você parar pra pensar, até alguns eventos ditos culturais não o são de fato. Ou vai dizer que ver a rainha de bateria da escola de samba rebolando seminua e cheia de glitter no corpo te faz refletir sobre os rumos que a nação tomará?

Acho um pouco de hipocrisia e de falta do que fazer também criticar o Big Brother Brasil. Todos nós sabemos que a atração não vai ser mais cultural pois simplesmente não é esse o objetivo. Ou você acha que o telespectador queria que, em uma prova de resistência, os confinados tivessem que recitar Os Lusíadas até o fim? A própria emissora tem seus programas educativos, informativos e culturais; qual o grande problema de ter um - ou quantos quiser - só de entretenimento? E não preciso nem comentar a hipocrisia que é alguém assistir como louco, pagar o pay-per-view e ainda reclamar que o programa é uma perda de tempo.

O poder de mudar o programa deixou de estar em nossas mãos; é uma atração de grande audiência apesar do formato quase imutável e é de interesse da emissora que ele continue assim. Agora, o poder de trocar de canal, ou de desligar a televisão e ir ler um livro, sempre esteve conosco e sempre estará, basta saber usar (e, de vez em quando, trocar as pilhas também) .